Na ONU, Dilma alerta sobre crise e defende Estado palestino

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João Fellet

No primeiro discurso de uma mulher na abertura da Assembleia Geral da ONU, a presidente Dilma Rousseff cobrou nesta quarta-feira união dos países no combate à crise econômica internacional e “lamentou” ainda não poder saudar a presença de um Estado palestino nas Nações Unidas.

A presidente brasileira declarou que o mundo vive um “momento delicado e uma oportunidade histórica”, que pode derivar em “graves rupturas políticas e sociais sem precedentes” por conta da crise econômica.

“Ou nos unimos (para combatê-la) ou sairemos todos derrotados. A crise é série demais para ser administrada por poucos”, disse Dilma, pedindo ajustes fiscais nas nações afetadas por crises da dívida, combate ao protecionismo, e, em aparente referência à China, estímulo aos mercados internos de países superavitários e fim da guerra cambial – ou seja, de reduções artificiais do câmbio para beneficiar exportações.

“A reforma das instituições financeiras multilaterais deve prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes”, prosseguiu a presidente, repetindo uma cobrança brasileira por mais voz ativa em órgãos como o FMI.

A presidente também pleiteou mudanças no Conselho de Segurança da ONU, do qual o Brasil historicamente aspira se tornar membro permanente, com direito a veto. Para a presidente, o CS na forma como está perde “legitimidade”.

Ao dar as boas-vindas na ONU ao Sudão do Sul, nação oficialmente criada neste ano, Dilma disse que lamentava “ainda não poder saudar o ingresso da Palestina” no organismo multilateral.

“Acreditamos que chegou o momento de ter a Palestina (como Estado independente) e reconhecer seu direito legítimo à soberania”, declarou. “Só a Palestina livre poderá atender aos anseios de Israel por segurança.”

As declarações de Dilma ocorrem às vésperas da possível formalização do pedido da Autoridade Palestina pelo reconhecimento da ONU ao Estado palestino.

O pedido, a ser feito pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, durante a Assembleia Geral, enfrenta forte resistência de Israel e dos Estados Unidos, que prometem vetá-lo no Conselho de Segurança, alegando que a independência só pode vir com negociações com os israelenses.

Primavera Árabe

Dilma também saudou em seu discurso os protestos da Primavera Árabe, dizendo que o Brasil “se solidariza com a busca pela liberdade”.

Mas a presidente criticou interferências “com o uso da força” em países atravessando revoltas populares e repressão governamental – em nova mostra da oposição do governo brasileiro à ação militar da Otan (aliança militar ocidental) na Líbia, feita com base em uma resolução aprovada na ONU.

Na opinião de Dilma, “é preciso que as nações encontrem uma forma legítima de ajudar (os países em convulsão)”.

“Estamos convencidos de que o uso da força é a última alternativa. A busca pela paz não pode se limitar a intervenções em situações extremas”.

Por fim, Dilma também disse que tem “orgulho de viver um momento histórico” de ser a primeira mulher a discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU – pronunciamento este que desde 1947 fica a cargo do presidente brasileiro.

“Sinto-me representando todas as mulheres”, declarou a presidente, dizendo que a voz feminina é “a voz da democracia e da igualdade”.

Fonte: BBC Brasil

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CS da ONU revoga sanções contra 2 companhias de petróleo da Líbia

Cipping

NOVA YORK – O Conselho de Segurança das Nações Unidas revogou nesta sexta-feira as sanções contra duas companhias de petróleo da Líbia e afrouxou as restrições sobre quatro bancos, com objetivo de acelerar a recuperação do país da guerra civil que levou à queda do regime de Muamar Gadafi.

Por unanimidade, o Conselho de Segurança adotou uma resolução que descongela os ativos da Libyan National Oil Corporation e da Zueitina Oil Company. A medida também permite que o Banco Central da Líbia, o Banco Estrangeiro Líbio, a Autoridade de Investimento Líbia e a Carteira de Investimento Líbio-Africana a comprar ajuda humanitária, combustível, energia elétrica e apoiar os esforços para fortalecer o governo e a economia do país.

A resolução afrouxou o embargo de armas contra a Líbia – isso permitirá que a ONU e o Conselho Nacional de Transição (CNT)  levem armas leves ao país. E ainda revogou a proibição de todos os voos feitos por aviões líbios.

O Conselho de Segurança também estabeleceu uma missão para promover a recuperação econômica, restaurar a segurança pública e os serviços, proteger os direitos humanso e coordenar a entrega da ajuda internacional.

Fonte: Bloomberg via Valor

Marx estava certo… sobre o capitalismo

Opinião

John Gray

Filósofo político e escritor

Como efeito colateral da crise financeira, mais e mais pessoas estão começando a pensar que Karl Marx estava certo. O grande filósofo, economista e revolucionário alemão do século 19 acreditava que o capitalismo era radicalmente instável.

Ele tem uma tendência intrínseca de produzir avanços e fracassos cada vez maiores, e no longo prazo, ele estava destinado a se autodestruir.

Marx saudava a autodestruição do capitalismo. Ele era confiante que uma revolução popular ocorreria e daria origem um sistema comunista que seria mais produtivo e muito mais humano.

Marx estava errado sobre o comunismo. Aquilo sobre o que ele estava profeticamente certo era a sua compreensão da revolução do capitalismo. Não era somente a instabilidade endêmica do capitalismo que ele compreendia, embora neste sentido ele fosse muito mais perspicaz do que a maioria dos economistas da sua época e da nossa.

Mais profundamente, Marx compreendeu como o capitalismo destrói a sua própria base social – o meio de vida da classe média. A terminologia marxista de burguês e proletário tem um tom arcaico.

Mas quando ele argumentava que o capitalismo iria arrastar as classes médias a algo parecido com a existência precária dos sobrecarregados trabalhadores de sua época, Marx previu uma mudança na maneira como vivemos à qual só agora estamos lutando para nos adaptarmos.

Ele via o capitalismo como o sistema econômico mais revolucionário da história, e não pode haver dúvida de que ele se diferencia daqueles que vieram antes dele.

Os caçadores e coletores persistiram nesta forma de vida por milhares de anos, enquanto as culturas escravagistas permaneceram assim por quase o mesmo tempo, e as sociedades feudais sobreviveram por muitos séculos. Em contraste, o capitalismo transforma tudo que ele toca.

Não são só as marcas que estão mudando constantemente. As empresas e as indústrias são criadas e destruídas em um fluxo incessante de inovação, enquanto as relações humanas são dissolvidas e reinventadas em novas formas.

O capitalismo foi descrito como um processo de destruição criativa, e ninguém pode negar que ele foi prodigiosamente produtivo. Praticamente qualquer um que esteja vivo na Grã-Bretanha hoje tem uma renda real maior do que eles teriam se o capitalismo nunca tivesse existido.

Retorno negativo

O problema é que entre as coisas que foram destruídas no processo está o estilo de vida do qual o capitalismo dependia no passado.

Defensores do capitalismo argumentam que ele oferece a todos os benefícios que, na época de Marx, eram desfrutados somente pela burguesia, a classe média estabelecida que possuía capital e tinha um razoável nível de segurança e liberdade em suas vidas.

No capitalismo do século 19, a maioria das pessoas não tinha nada. Elas viviam de vender o seu trabalho, e quando os mercados entravam em queda, eles enfrentavam tempos difíceis. Mas à medida que o capitalismo evolui, seus defensores dizem, um número crescente de pessoas pode se beneficiar dele.

Carreiras bem-sucedidas não serão mais a prerrogativa de uns poucos. As pessoas não terão dificuldades todo mês para subsistir com base em um salário inseguro. Protegidos pelas economias, pela casa que possume e uma pensão decente, eles serão capazes de planejar suas vidas sem medo.

Com o crescimento da democracia e a distribuição da riqueza, ninguém precisará ser privado da vida burguesa. Todo mundo poderá ser da classe média.

Na verdade, na Grã-Bretanha, nos EUA e em muitos outros países desenvolvidos nos últimos 20 ou 30 anos, o contrário vem ocorrendo. A segurança do emprego não existe, as atividades e as profissões do passado em grande parte acabaram e as carreiras que duram uma vida inteira são meramente lembranças.

Se as pessoas têm qualquer riqueza, isto está nas suas casas, mas os preços dos imóveis nem sempre crescem. Quando o crédito fica restrito como agora, eles podem ficar estagnados por anos. Uma minoria cada vez menor pode contar com uma pensão com a qual pode viver confortavelmente, e não são muitos os que tem economias significativas.

Mais e mais pessoas vivem um dia de cada vez, com pouca noção do que o futuro pode reservar. AS pessoas da classe média costumavam imaginar as suas vidas desdobradas em uma progressão ordenada. Mas não é mais possível olhar para uma vida como uma sucessão de estágios em que cada um é um passo dado a partir do último.

No processo da destruição criativa, a escada foi afastada, e para um número cada vez maior de pessoas, uma existência de classe média não é mais sequer uma aspiração.

Assumindo riscos

Enquanto o capitalismo avançava, ele devolveu as pessoas a uma nova versão da existência precária do proletariado de Marx. As nossas rendas são muito maiores, e em algum grau nós estamos protegidos contra os choques por aquilo que resta do Estado de bem-estar social do pós-guerra.

Mas nós temos muito pouco controle efetivo sobre o curso das nossas vidas, e a incerteza na qual vivemos está sendo piorada pelas políticas voltadas para lidar com a crise financeira.

As taxas de juros a zero em meio a preços crescentes querem dizer que as pessoas estão tendo um retorno negativo de seu dinheiro, e ao longo do tempo o seu capital está se erodindo.

A situação de muitas das pessoas mais jovens é ainda pior. Para adquirir os talentos de que precisa, a pessoa tem de se endividar. Já que em algum ponto será necessário se reciclar, é preciso tentar economizar, mas se a pessoa está endividada desde o começo, esta é a última coisa que ela poderá fazer.

Não importa a sua idade, a perspectiva que a maioria das pessoas enfrenta é de uma vida de insegurança.

Ao mesmo tempo em que privou as pessoas da segurança da vida burguesa, o capitalismo criou o tipo de pessoa que vive a obsoleta vida burguesa. Nos anos 80, havia muita conversa sobre valores vitorianos, e propagandistas do livre mercado costumavam argumentar que ele traria de volta para nós os íntegros valores de outrora.

Para muitos, as mulheres e os pobres, por exemplo, estes valores vitorianos podem ser bastante ilógicos em seus efeitos. Mas o fato mais importante é que o livre mercado funciona para corroer as virtudes que mantêm a vida burguesa.

Quando as economias estão se perdendo, ser econômico pode ser o caminho para a ruína. É a pessoa que toma pesados empréstimos e não tem medo de declarar a insolvência que sobrevive e consegue prosperar.

Quando o mercado de trabalho está altamente volátil, não são aqueles que se mantém obedientemente fiéis a sua tarefa que são bem-sucedidos, e sim as pessoas que estão sempre prontas para tentar algo novo e que parece mais promissor.

Em uma sociedade que está sendo continuamente transformada pelas forças do mercado, os valores tradicionais são disfuncionais, e qualquer um que tentar viver com base neles está arriscado a acabar no ferro-velho.

Vasta riqueza

Olhando para um futuro no qual o mercado permeia cada canto da vida, Marx escreveu no ‘Manifesto Comunista’: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Para alguém que vivia na Grã-Bretanha no início do período vitoriano – o Manifesto foi publicado em 1848 -, isto era uma observação incrivelmente perspicaz.

Naquela época, nada parecia mais sólido que a sociedade às margens daquela em que Marx vivia. Um século e meio depois, nos encontramos no mundo que ele previu, onde a vida de todo mundo é experimental e provisória, e a ruína súbita pode ocorrer a qualquer momento.

Uns poucos acumularam uma vasta riqueza, mas mesmo isso tem uma característica evanescente, quase espectral. Na época vitoriana, os muito ricos podiam relaxar, desde que eles fossem conservadores com a maneira como eles investiam seu dinheiro. Quando os heróis dos romances de Dickens finalmente recebem sua herança, eles nunca mais fazem nada na vida.

Hoje, não existe o porto seguro. As rotações do mercado são tais que ninguém pode saber o que terá valor dentro de alguns anos.

Este estado de inquietação perpétua é a revolução permanente do capitalismo, e eu acho que ele vai ficar conosco em qualquer futuro que seja realisticamente imaginável. Nós estamos apenas no meio do caminho de uma crise financeira que ainda deixará muitas coisas de cabeça para baixo.

As moedas e os governos provavelmente ficarão de ponta-cabeça, junto de partes do sistema financeiro que nós acreditávamos estar a salvo. Os riscos que ameaçavam congelar a economia mundial apenas três anos atrás não foram enfrentados. Eles foram simplesmente deslocados para os Estados.

Não importa o que políticos nos digam sobre a necessidade de controlar o déficit. Dívidas do tamanho das que foram contraídas não podem ser pagas. Elas quase que certamente serão infladas – um processo que está destinado a ser doloroso e empobrecedor para muitos.

O resultado só pode ser mais revoltas, em uma escala ainda maior. Mas isto não será o fim do mundo, ou mesmo do capitalismo. Aconteça o que acontecer, nós ainda teremos que aprender a viver com a energia mercurial que o mercado emitiu.

O capitalismo levou a uma revolução, mas não a que Marx esperava. O feroz pensador alemão odiava a vida burguesa e queria que o comunismo a destruísse. E assim como ele previu, o mundo burguês foi destruído.

Mas não foi o comunismo que conseguiu esta proeza. Foi o capitalismo que eliminou a burguesia.

Fonte: BBC Brasil

D & P pergunta: Concordam?

Embraer lucra com ‘retrofit’ de aviões

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Empresa tem contratos de US$ 1 bilhão para modernizar jatos militares das Forças Armadas brasileiras, e fechou acordo na Colômbia

Roberto Godoy

Em tempo de dinheiro curto, soluções criativas. Esse ambiente está abrindo para a Embraer Defesa e Segurança (EDS), um novo viés de negócios – o da revitalização tecnológica de aeronaves militares, que pode movimentar algo como US$ 2 bilhões.

Metade disso é o tamanho estimado da demanda externa para esse tipo de serviços, segundo o analista americano Rick Austin, da Universidade da Califórnia. A outra metade, a empresa fatura executando três contratos nacionais – dois da Aeronáutica e um da Marinha.

A Colômbia é o primeiro cliente internacional. A Embraer fará a modernização de 12 aviões Tucano, de treinamento de pilotos da força aérea, produzidos há cerca de 25 anos. O pacote completo abrange 126 aeronaves que serão trabalhadas na fábrica de Gavião Peixoto, a 300 quilômetros de São Paulo.

No Brasil, a empresa está atualizando um total de 57 supersônicos F-5 e mais 43 bombardeiros leves AMX, todos da FAB. A encomenda da Marinha envolve 12 jatos combate Skyhawk, embarcados no porta-aviões São Paulo. A estimativa dos dois comandos é de que, na nova configuração, os seus esquadrões possam ser mantidos em operação até 2025. A EDS tem como parceira a israelense Elbit.

Segundo um especialista dessa companhia, que não quer ser identificado, a característica dos programas “é a sua notável capacidade de fazer dos velhos caças, novos caças; não somente reformados, mas sim virtualmente reconstruídos, dos rebites ao novo radar de longo alcance”.

Para o presidente da Embraer Defesa e Segurança, Luiz Carlos Aguiar, “há 250 Emb-312 Tucano em operação em 20 países usuários, passíveis de revitalização e, na mesma situação, ao menos 70 supersônicos F-5”. O fabricante original, a americana Northrop, produziu cerca de 1.350 jatos nos anos 70. Resistentes, com considerável poder de fogo, boa parte deles ainda está em operação, todavia, modernizados.

Novo é novo. Aguiar destaca que “a revitalização, opção de baixo custo, é alternativa frente à necessidade de substituição de frotas envelhecidas e à baixa disponibilidade de orçamento. Sob essa ótica, a atividade passa a ser uma oportunidade de mercado, ainda mais para nossa empresa, comprovadamente capacitada a atender essa demanda”.

O executivo considera a extensão da vida útil dos jatos de combate da Marinha e da Aeronáutica “um fator positivo”. Entretanto, Aguiar salienta que, “cada um a seu tempo, terão de ser, paulatina e inevitavelmente, substituídos pelos novos caças de superioridade aérea, os F-X2, previstos no plano de reaparelhamento”.

Um objetivo do projeto é aplicar na recuperação conhecimento avançado próprio, principalmente na integração de sistemas e de software embarcado. “Atingimos, com isso, o mesmo patamar operacional dos mais avançados aviões de combate existentes no mercado”, diz Aguiar.

Fonte: O Estado de São Paulo

Amazônia Legal (da China)

Nairo Alméri

Em fins de 2010, as estatais do Governo da República Popular da China eram donas diretas e indiretas (principalmente via participação em empresas de mineração como o Grupo Vale) de alguns milhares de hectares de terras na Amazônia Legal. Mas era forte o avanço também sobre terras de agropecuária, com enorme peso no Mato Grosso.
Dentro da Associação do Produtores de Soja e Milho do Mato Grosso (Aprosoja-MT), funcionários do Governo asiático são bem conhecidos. No Estado, além da compra direta, o capital chinês é virtual proprietário de grandes áreas, dadas como garantias reais em contratos de compras antecipadas de soja. As glebas chinesas no Brasil não são dimensionadas com exatidão.
Na abertura 6º Circuito Aprosoja, em Cuiabá (MT), em 16 de abril, aquelas compras de terras agricultáveis por estrangeiros foi motivo de protesto veemente por parte de um parlamentar local. “Cheguei aqui guri, com 15 anos, em 1984. Vim num assentamento, com meus pais morando embaixo de lona de plástico. Sofremos nas décadas de 80 e 90. Depois, em 2003 e 2004, trabalhamos com crédito caro, acreditando no Governo: plantava por R$ 25 a saca da soja e vendia por R$ 17. Pequenos e médios ficaram endividados e estão quebrados ainda. Aí, aparecem investidores e fundos de investimentos estrangeiros para comprar barato uma vida de trabalho. Não vamos permitir, nem para americano, nem para chinês”, protestou deputado federal Neri Geller (PP-MT), da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, que lidera movimento para investigar as vendas de terras ao Governo da China.
O parlamentar exibia, em estatística elaborada pela Aprosoja, um avanço acelerado das lavouras de capital estrangeiro no MT: de 22 mil hectares, em 2005, para 320 mil a 330 mil hectares, em abril. Mas, no começo do mês passado, o presidente da Frente Parlamentar da Agricultura (FAP), deputado Moreira Mendes (PPS-RO), apontou números divergentes do colega mato-grossense e bem superiores: em junho de 2010, 900 mil hectares de terras produtivas com grãos, cana-de-açúcar, algodão e eucalipto para a indústria de celulose do MT já estariam em propriedades de empresas do Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, China e Europa. Em nível nacional, em 3.600 municípios, os estrangeiros somavam propriedades com 4,4 milhões de hectares.

Descontrole e pressão do caixa bilionário chinês

A área estimada pelo presidente da FAP, também na segunda quinzena de abril, apareceu em artigo assinado por Marta Mercado – doutora em Ciências Sociais e professora do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco – para o site Fórum em Foco.
“As vendas para pessoas físicas e empresas estrangeiras terão de ser feitas exclusivamente por escritura pública, registrada em livros específicos dos cartórios, e ser informadas às corregedorias de Justiça nos Estados. Nas fronteiras, a compra de terra deverá passar por aprovação do Conselho de Segurança Nacional. Essas regras começaram a ser alteradas em 1994, mas o governo acabou perdendo totalmente o controle sobre terras vendidas a estrangeiros. O Incra calcula em 4,3 milhões de hectares as terras em mãos de estrangeiros, mas são dados declarados, que não incluem muitas empresas com capital externo nem terras em nome de laranjas”.
O artigo desperta dois pontos de preocupação para o descontrole da União sobre as vendas de terras a estrangeiros. O primeiro, ao lembrar que, em abril de 2010, a China National Agricultural Development Group Corporation (estatal para o agronegócio) manifestou a pretensão de comprar terras no Brasil para produção de soja e milho no Centro-Oeste, Maranhão, do Piauí e Tocantins. A estatal já mantinha no exterior – países da África, no Peru e Argentina – 10 mil (12,5%) dos 80 mil de seus quadros. O segundo item preocupante era o poder de caixa do Governo da China que apontava a possibilidade de direcionar US$ 29 bilhões só para negócios no Brasil, sendo 90% (US$ 26,1 bilhões) mineração, energia e commodities .

Agora o fogo amigo da CNA contra o Planalto
Pelas leis do país, a venda de terras a estrangeiros (incluindo as empresas estatais) não pode superar 10 mil hectares. Esse negócio precisa de autorização do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). No final de junho, a questão foi parar na mesa da presidente Dilma Rousseff .
A princípio, o Governo deverá regular as vendas a partir de 5 mil hectares e entregar o controle ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), além de uma agência reguladora – o Conselho Nacional de Terras (Conater). Nas vendas de áreas com mais de 500 mil hectares, a aprovação teria que ser do Congresso Nacional. O conjunto da nova proposta envolve o Incra, os Ministérios da Agricultura, do Desenvolvimento Agrário, Casa Civil e a Advocacia-Geral da União (AGU).
Numa ação anterior, em agosto de 2010, a AGU determinou a proibição da venda de propriedades rurais a estrangeiros acima de 50 módulos, que, dependendo da região, pode variar de 250 a 5 mil hectares. Estabeleceu, ainda, que o somatório dessas aquisições por empresa de outro país não deve superar 25% da área do município.
Mas, na semana passada, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), durante o Fórum Internacional de Estudos Estratégicos para Desenvolvimento Agropecuário e Respeito ao Clima (da própria confederação), criou um imbróglio para o Governo Dilma, ao solicitar a revogação daquela proibição, inclusive de arrendamentos. O argumento da CNA é que a medida poderá inibir o crescimento do agronegócio brasileiro.

Fonte: Hoje em Dia

Chegou a hora do Brasil, ou ela já passou?

Por JOHN LYONS

O boom brasileiro, em meio a uma mudança tectônica do investimento mundial para os mercados emergentes, está trazendo riscos para a maior economia da América Latina.

Uma abundância de liquidez ao redor do globo nos últimos anos tem gerado fundos para empréstimos bancários mais arriscados e alimentou o potencial de uma bolha imobiliária. A mesma mudança no fluxo internacional de dinheiro que impulsionou a bolsa Bovespa e trouxe financiamentos para portos e estádios da Copa também fez do real uma das moedas mais supervalorizadas do mundo e muitas fábricas locais não são mais competitivas nos mercados mundiais.

A vida cotidiana se tornou tão cara que ir ao cinema, pegar um táxi e até tomar uma Coca-Cola em São Paulo é mais caro que em Nova York. O preço dos apartamentos no Rio de Janeiro dobrou desde 2008 e o aluguel dos escritórios em São Paulo subitamente ficou mais caro que em Manhattan. Em muitos casos os bancos de investimentos precisam pagar aos banqueiros e analistas brasileiros mais do que eles ganhariam pelo mesmo cargo em Nova York.

A preocupação com o real valorizado demais é um dos principais motivos que levaram o Banco Central a cortar a taxa Selic em meio ponto porcentual, para 12%, no mês passado, recuando do curso seguido durante um ano de alta dos juros. A decisão se arrisca a impulsionar a inflação, mas as autoridades do BC dizem que o alto juro do país tem atraído investimento estrangeiro especulativo que supervaloriza o real e prejudica a economia.

O real já caiu 6% em relação ao dólar desde que o Banco Central baixou os juros, mas ainda está cerca de 36% mais alto do que em 1o de janeiro de 2009. Como os Estados Unidos e a Europa estão afundados no pessimismo econômico, os investidores mundiais devem aplicar mais de US$ 1 trilhão este ano em economias emergentes como Brasil, China e Índia — quase cinco vezes mais que há dez anos. O dinheiro está fluindo porque as economias emergentes é que têm impulsionado o crescimento mundial desde 2009.

Alguns executivos brasileiros temem que o custo de operar esteja aumentando tanto que seu país pode não conseguir se tornar a potência industrial que sonha há gerações. “Desde pequena ouço que o Brasil é o país do futuro. Agora o futuro chegou e comecei a temer que será breve”, disse Cynthia Benedetto, diretora financeira do carro-chefe da indústria nacional, a Empresa Brasileira de Aeronáutica SA, terceira maior fabricante de jatos do mundo. Exportadora importante, a Embraer afirma que está investindo em equipamento para reduzir custos trabalhistas no Brasil e também abrindo mais fábricas no exterior.

As fábricas brasileiras produziram em junho 1,6% menos que em maio, no primeiro declínio desde a crise financeira mundial de 2008. As fábricas estão perdendo mercado no exterior e perdendo para importados baratos porque a mão-de-obra, as peças e o transporte têm preço de primeiro mundo — embora o Brasil ainda tenha todas as desvantagens de terceiro mundo como estradas ruins, trabalhadores com baixa escolaridade e violência.

O Brasil não é o único mercado em desenvolvimento que tem enfrentado problemas desse tipo. O investimento estrangeiro maior na China contribuiu para uma inflação dos alimentos nas cidades que alguns economistas dizem que pode provocar rebeliões. Na Turquia, o governo tentou uma abordagem parecida com a que o BC brasileiro acabou de adotar — cortar juros para impedir que a entrada de capital valorize demais a moeda. Mas os juros baixos também impulsionaram uma alta considerável no crédito bancário e temores de uma bolha de crédito.

Aprender a administrar a abundância é uma situação inusitada para o Brasil, que sempre lutou para atrair investimento enquanto oscilava entre crises econômicas e desvalorizações da moeda. Mas os esforços para estabilizar a moeda, domar a inflação e diminuir o endividamento a partir dos anos 90 geraram US$ 350 bilhões em reservas internacionais e grau de investimento.

O dinheiro flui facilmente para o Brasil porque seu câmbio é livre e seus mercados de ações, dívida e derivativos são sofisticados, diferentemente da China. E na verdade há muitos investidores que buscam exposição à China investindo no Brasil, porque ele é um dos mais importantes exportadores de matéria-prima para os chineses. O Brasil é o maior exportador mundial de ferro, carne, frango, açúcar e café. E acabou de fazer descobertas petrolíferas importantes na costa que também podem torná-lo um dos principais exportadores de petróleo.

Claro que o capital que invade rapidamente um país também pode abandoná-lo na mesma velocidade. Líderes das economias emergentes temem que uma catástrofe financeira no mundo desenvolvido — como uma moratória de dívida soberana na Europa — pode inverter subitamente o fluxo de investimentos. Isso causaria declínios aterradores no câmbio, nos imóveis e em outros preços que foram às alturas em lugares como o Brasil durante o atual boom.

Mas no momento as economias emergentes enfrentam mesmo é um o excesso de dinheiro. O Fundo Monetário Internacional reuniu em maio autoridades da África do Sul, da Índia, do Chile e de outros países no Rio de Janeiro para discutir soluções para enfrentar a entrada excessiva de capital. Os banqueiros centrais discutiram artigos com títulos como “Administrando a Abundância para Evitar um Colapso na América Latina”.

“O fluxo de capital exacerbou significativamente problemas internos como bolhas e inflação que têm o potencial de tirar as economias emergentes do caminho do crescimento e gerar instabilidade social”, diz o economista Eswar Prasad, da Universidade Cornell, que já comandou a divisão chinesa do FMI.

Em seus oito meses de gestão, o governo Dilma Rousseff tem, em geral, perdido a batalha para coibir a alta do real. As autoridades do país culpam o juro quase zero dos EUA e da Europa por possibilitar que fundos de hedge tomem empréstimos baratos no mundo desenvolvido para investir no Brasil.

“Temos de nos defender desse oceano imenso, fantástico e extraordinário de liquidez que tem atingindo nossas economias em busca de retornos que não conseguem em suas próprias”, disse Rousseff a líderes latino-americanos em Lima, em 28 de julho.

Mas conter um oceano de liquidez não é fácil. Alguns economistas acreditam que o governo de Rousseff pressionou o BC a cortar os juros prematuramente — algo que a presidente nega. O resultado pode ser inflacionário, dizem eles. O BC afirma que o crescimento mundial está diminuindo ao ponto de tornar a inflação menos preocupante.

O Brasil tem anunciado medidas para coibir o fluxo de capital quase mensalmente, como um imposto sobre compras de títulos de renda fixa, ou tentado compensar seu impacto, com um pacote multibilionário de subsídios para indústrias prejudicadas pela alta do real. Mas a moeda continua subindo e as indústrias afirmam que os subsídios não são suficientes.

Um dos motivos por que essas políticas estão fracassando: mesmo depois de baixar os juros para 12%, o Brasil continua tendo uma das maiores taxas de juro real — o juro menos a inflação — do mundo. Isso torna o Brasil um alvo fácil para especuladores que tomam emprestado dinheiro barato onde os juros são quase zero para depositar no Brasil e embolsar a diferença. O Brasil não pode cortar os juros mais rapidamente porque precisa tomar empréstimos para financiar sua previdência crescente e projetos de infraestrutura.

A verdade é que o fluxo internacional de capital se parece muito com o da água: feche uma comporta e ele flui por outra. As autoridades brasileiras suspeitam que quando um país se movimenta para restringir investimentos especulativos, o dinheiro é disfarçado de investimento direto em empresas. A prova é uma alta de 260% no investimento estrangeiro direto, para US$ 38,5 bilhões, só nos primeiros seis meses do ano.

E, na esteira desses fluxos de investimento, um dos debates mais acalorados no Brasil ultimamente é se o preço alto de tudo, de carros a apartamentos, é uma bolha que um dia vai estourar.

“Não vejo bolha. O fluxo de capital é uma consequência natural de todas as boas notícias sobre o Brasil”, disse Fabio Barbosa, diretor-presidente da editora Abril SA e membro do conselho da Petróleo Brasileiro SA. “A questão é como podemos continuar competitivos num cenário de moeda forte que, na minha opinião, chegou para ficar.”

Outros enxergam exagero nos preços altos. “Chamo de efeito capirinha”, disse Bob Fryklund, que dirige a firma de pesquisa de mercado petrolífero IHS-CERA, no Rio de Janeiro.

Munida com uma moeda forte e crédito barato, uma nova classe de brasileiros internacionais está viajando e comprando loucamente em países em que os produtos são mais baratos. Os brasileiros gastaram US$ 8,5 bilhões em banhos de loja no exterior ano passado — 60% a mais que num ano antes. Os shoppings perto de Miami estão contratando vendedores que falam português e abrindo restaurantes brasileiros para atender esse público.

A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores prevê que um quarto dos carros vendidos no Brasil este ano serão importados, 5% a mais que em 2005, já que a moeda forte barateia os importados. Milhares de metalúrgicos furiosos das filiais brasileiras da Volkswagen e outras montadoras fecharam as ruas de São Paulo em julho para protestar contra a alta das importações, que eles temem que eliminará empregos.

O fluxo de investimentos também aqueceu o mercado imobiliário. Uma série de construtoras brasileiras como a Gafisa SA e a Cyrela SA captaram centenas de milhões de dólares com ofertas de ações nos últimos anos, principalmente para investidores americanos. O dinheiro as ajudou a construir casas para a classe média emergente do Brasil — algo positivo.

Mas essas construtoras bastante capitalizadas aumentaram o preço dos terrenos disponíveis nas grandes cidades, o que, por sua vez, valorizou os imóveis, segundo Sergio Freire, diretor-presidente da corretora Brasil Brokers.

O surgimento de bolhas de crédito é outra preocupação. O crédito está aumentando rapidamente nos grandes países emergentes — Brasil, China, Índia e Rússia. O índice de inadimplência tem subido no Brasil.

O colapso da bolha de crédito pessoal de Maura Guarnieri, em São Paulo, é um exemplo disso. Uma trabalhadora com dois filhos, Guarnieri começou a se endividar ano passado depois que o marido teve insuficiência renal e parou de trabalhar. Em alguns meses ela já tinha aberto quatro linhas de crédito a juros de mais de 40% ao ano — muito mais do que podia pagar mensalmente. Ela não conseguiu pagar recentemente alguns dos empréstimos e contribuiu para a alta de 20% na inadimplência do crédito ao consumidor no Brasil até agora no ano.

O capital estrangeiro ajudou Guarnieri a tomar emprestado. Seus três maiores credores — Banco Cruzeiro do Sul SA, Banco Daycoval SA e Banco Panamericano SA — são bancos de médio porte que expandiram a carteira de crédito, em parte, com empréstimos baratos no exterior. Juntos, eles já tomaram US$ 2,2 bilhões em nove emissões separadas de títulos no exterior a juros menores que os disponíveis no mercado brasileiro.

Dois dos bancos, o Daycoval e o Banco Cruzeiro, descontam a prestação do contracheque de Guarnieri porque o crédito era consignado e continuam recebendo.

O real forte é um problema ainda maior para a indústria. Humberto Barbato tem uma empresa que fabrica peças para linhas de alta voltagem. Décadas atrás ele se beneficiou de uma política governamental que ajudava fabricantes a exportar. Agora ele está assistindo ao colapso de seu negócio. A moeda forte está expulsando-o de mercados estrangeiros conquistados a muito custo. E ele também está perdendo mercado no Brasil para importados chineses baratos.

Ele tem vergonha de reconhecer, mas começou a revender resistores chineses em vez de fabricar os seus. Mas ele tem um jeito de afogar a mágoa. Enquanto visitava o filho na Flórida recentemente, usou o real forte para gastar à vontade com outros brasileiros num shopping local.

“É a minha vingança”, disse Barbato.

Fonte: Wall Street Journal via Valor Econômico