Chegou a hora do Brasil, ou ela já passou?

Por JOHN LYONS

O boom brasileiro, em meio a uma mudança tectônica do investimento mundial para os mercados emergentes, está trazendo riscos para a maior economia da América Latina.

Uma abundância de liquidez ao redor do globo nos últimos anos tem gerado fundos para empréstimos bancários mais arriscados e alimentou o potencial de uma bolha imobiliária. A mesma mudança no fluxo internacional de dinheiro que impulsionou a bolsa Bovespa e trouxe financiamentos para portos e estádios da Copa também fez do real uma das moedas mais supervalorizadas do mundo e muitas fábricas locais não são mais competitivas nos mercados mundiais.

A vida cotidiana se tornou tão cara que ir ao cinema, pegar um táxi e até tomar uma Coca-Cola em São Paulo é mais caro que em Nova York. O preço dos apartamentos no Rio de Janeiro dobrou desde 2008 e o aluguel dos escritórios em São Paulo subitamente ficou mais caro que em Manhattan. Em muitos casos os bancos de investimentos precisam pagar aos banqueiros e analistas brasileiros mais do que eles ganhariam pelo mesmo cargo em Nova York.

A preocupação com o real valorizado demais é um dos principais motivos que levaram o Banco Central a cortar a taxa Selic em meio ponto porcentual, para 12%, no mês passado, recuando do curso seguido durante um ano de alta dos juros. A decisão se arrisca a impulsionar a inflação, mas as autoridades do BC dizem que o alto juro do país tem atraído investimento estrangeiro especulativo que supervaloriza o real e prejudica a economia.

O real já caiu 6% em relação ao dólar desde que o Banco Central baixou os juros, mas ainda está cerca de 36% mais alto do que em 1o de janeiro de 2009. Como os Estados Unidos e a Europa estão afundados no pessimismo econômico, os investidores mundiais devem aplicar mais de US$ 1 trilhão este ano em economias emergentes como Brasil, China e Índia — quase cinco vezes mais que há dez anos. O dinheiro está fluindo porque as economias emergentes é que têm impulsionado o crescimento mundial desde 2009.

Alguns executivos brasileiros temem que o custo de operar esteja aumentando tanto que seu país pode não conseguir se tornar a potência industrial que sonha há gerações. “Desde pequena ouço que o Brasil é o país do futuro. Agora o futuro chegou e comecei a temer que será breve”, disse Cynthia Benedetto, diretora financeira do carro-chefe da indústria nacional, a Empresa Brasileira de Aeronáutica SA, terceira maior fabricante de jatos do mundo. Exportadora importante, a Embraer afirma que está investindo em equipamento para reduzir custos trabalhistas no Brasil e também abrindo mais fábricas no exterior.

As fábricas brasileiras produziram em junho 1,6% menos que em maio, no primeiro declínio desde a crise financeira mundial de 2008. As fábricas estão perdendo mercado no exterior e perdendo para importados baratos porque a mão-de-obra, as peças e o transporte têm preço de primeiro mundo — embora o Brasil ainda tenha todas as desvantagens de terceiro mundo como estradas ruins, trabalhadores com baixa escolaridade e violência.

O Brasil não é o único mercado em desenvolvimento que tem enfrentado problemas desse tipo. O investimento estrangeiro maior na China contribuiu para uma inflação dos alimentos nas cidades que alguns economistas dizem que pode provocar rebeliões. Na Turquia, o governo tentou uma abordagem parecida com a que o BC brasileiro acabou de adotar — cortar juros para impedir que a entrada de capital valorize demais a moeda. Mas os juros baixos também impulsionaram uma alta considerável no crédito bancário e temores de uma bolha de crédito.

Aprender a administrar a abundância é uma situação inusitada para o Brasil, que sempre lutou para atrair investimento enquanto oscilava entre crises econômicas e desvalorizações da moeda. Mas os esforços para estabilizar a moeda, domar a inflação e diminuir o endividamento a partir dos anos 90 geraram US$ 350 bilhões em reservas internacionais e grau de investimento.

O dinheiro flui facilmente para o Brasil porque seu câmbio é livre e seus mercados de ações, dívida e derivativos são sofisticados, diferentemente da China. E na verdade há muitos investidores que buscam exposição à China investindo no Brasil, porque ele é um dos mais importantes exportadores de matéria-prima para os chineses. O Brasil é o maior exportador mundial de ferro, carne, frango, açúcar e café. E acabou de fazer descobertas petrolíferas importantes na costa que também podem torná-lo um dos principais exportadores de petróleo.

Claro que o capital que invade rapidamente um país também pode abandoná-lo na mesma velocidade. Líderes das economias emergentes temem que uma catástrofe financeira no mundo desenvolvido — como uma moratória de dívida soberana na Europa — pode inverter subitamente o fluxo de investimentos. Isso causaria declínios aterradores no câmbio, nos imóveis e em outros preços que foram às alturas em lugares como o Brasil durante o atual boom.

Mas no momento as economias emergentes enfrentam mesmo é um o excesso de dinheiro. O Fundo Monetário Internacional reuniu em maio autoridades da África do Sul, da Índia, do Chile e de outros países no Rio de Janeiro para discutir soluções para enfrentar a entrada excessiva de capital. Os banqueiros centrais discutiram artigos com títulos como “Administrando a Abundância para Evitar um Colapso na América Latina”.

“O fluxo de capital exacerbou significativamente problemas internos como bolhas e inflação que têm o potencial de tirar as economias emergentes do caminho do crescimento e gerar instabilidade social”, diz o economista Eswar Prasad, da Universidade Cornell, que já comandou a divisão chinesa do FMI.

Em seus oito meses de gestão, o governo Dilma Rousseff tem, em geral, perdido a batalha para coibir a alta do real. As autoridades do país culpam o juro quase zero dos EUA e da Europa por possibilitar que fundos de hedge tomem empréstimos baratos no mundo desenvolvido para investir no Brasil.

“Temos de nos defender desse oceano imenso, fantástico e extraordinário de liquidez que tem atingindo nossas economias em busca de retornos que não conseguem em suas próprias”, disse Rousseff a líderes latino-americanos em Lima, em 28 de julho.

Mas conter um oceano de liquidez não é fácil. Alguns economistas acreditam que o governo de Rousseff pressionou o BC a cortar os juros prematuramente — algo que a presidente nega. O resultado pode ser inflacionário, dizem eles. O BC afirma que o crescimento mundial está diminuindo ao ponto de tornar a inflação menos preocupante.

O Brasil tem anunciado medidas para coibir o fluxo de capital quase mensalmente, como um imposto sobre compras de títulos de renda fixa, ou tentado compensar seu impacto, com um pacote multibilionário de subsídios para indústrias prejudicadas pela alta do real. Mas a moeda continua subindo e as indústrias afirmam que os subsídios não são suficientes.

Um dos motivos por que essas políticas estão fracassando: mesmo depois de baixar os juros para 12%, o Brasil continua tendo uma das maiores taxas de juro real — o juro menos a inflação — do mundo. Isso torna o Brasil um alvo fácil para especuladores que tomam emprestado dinheiro barato onde os juros são quase zero para depositar no Brasil e embolsar a diferença. O Brasil não pode cortar os juros mais rapidamente porque precisa tomar empréstimos para financiar sua previdência crescente e projetos de infraestrutura.

A verdade é que o fluxo internacional de capital se parece muito com o da água: feche uma comporta e ele flui por outra. As autoridades brasileiras suspeitam que quando um país se movimenta para restringir investimentos especulativos, o dinheiro é disfarçado de investimento direto em empresas. A prova é uma alta de 260% no investimento estrangeiro direto, para US$ 38,5 bilhões, só nos primeiros seis meses do ano.

E, na esteira desses fluxos de investimento, um dos debates mais acalorados no Brasil ultimamente é se o preço alto de tudo, de carros a apartamentos, é uma bolha que um dia vai estourar.

“Não vejo bolha. O fluxo de capital é uma consequência natural de todas as boas notícias sobre o Brasil”, disse Fabio Barbosa, diretor-presidente da editora Abril SA e membro do conselho da Petróleo Brasileiro SA. “A questão é como podemos continuar competitivos num cenário de moeda forte que, na minha opinião, chegou para ficar.”

Outros enxergam exagero nos preços altos. “Chamo de efeito capirinha”, disse Bob Fryklund, que dirige a firma de pesquisa de mercado petrolífero IHS-CERA, no Rio de Janeiro.

Munida com uma moeda forte e crédito barato, uma nova classe de brasileiros internacionais está viajando e comprando loucamente em países em que os produtos são mais baratos. Os brasileiros gastaram US$ 8,5 bilhões em banhos de loja no exterior ano passado — 60% a mais que num ano antes. Os shoppings perto de Miami estão contratando vendedores que falam português e abrindo restaurantes brasileiros para atender esse público.

A Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores prevê que um quarto dos carros vendidos no Brasil este ano serão importados, 5% a mais que em 2005, já que a moeda forte barateia os importados. Milhares de metalúrgicos furiosos das filiais brasileiras da Volkswagen e outras montadoras fecharam as ruas de São Paulo em julho para protestar contra a alta das importações, que eles temem que eliminará empregos.

O fluxo de investimentos também aqueceu o mercado imobiliário. Uma série de construtoras brasileiras como a Gafisa SA e a Cyrela SA captaram centenas de milhões de dólares com ofertas de ações nos últimos anos, principalmente para investidores americanos. O dinheiro as ajudou a construir casas para a classe média emergente do Brasil — algo positivo.

Mas essas construtoras bastante capitalizadas aumentaram o preço dos terrenos disponíveis nas grandes cidades, o que, por sua vez, valorizou os imóveis, segundo Sergio Freire, diretor-presidente da corretora Brasil Brokers.

O surgimento de bolhas de crédito é outra preocupação. O crédito está aumentando rapidamente nos grandes países emergentes — Brasil, China, Índia e Rússia. O índice de inadimplência tem subido no Brasil.

O colapso da bolha de crédito pessoal de Maura Guarnieri, em São Paulo, é um exemplo disso. Uma trabalhadora com dois filhos, Guarnieri começou a se endividar ano passado depois que o marido teve insuficiência renal e parou de trabalhar. Em alguns meses ela já tinha aberto quatro linhas de crédito a juros de mais de 40% ao ano — muito mais do que podia pagar mensalmente. Ela não conseguiu pagar recentemente alguns dos empréstimos e contribuiu para a alta de 20% na inadimplência do crédito ao consumidor no Brasil até agora no ano.

O capital estrangeiro ajudou Guarnieri a tomar emprestado. Seus três maiores credores — Banco Cruzeiro do Sul SA, Banco Daycoval SA e Banco Panamericano SA — são bancos de médio porte que expandiram a carteira de crédito, em parte, com empréstimos baratos no exterior. Juntos, eles já tomaram US$ 2,2 bilhões em nove emissões separadas de títulos no exterior a juros menores que os disponíveis no mercado brasileiro.

Dois dos bancos, o Daycoval e o Banco Cruzeiro, descontam a prestação do contracheque de Guarnieri porque o crédito era consignado e continuam recebendo.

O real forte é um problema ainda maior para a indústria. Humberto Barbato tem uma empresa que fabrica peças para linhas de alta voltagem. Décadas atrás ele se beneficiou de uma política governamental que ajudava fabricantes a exportar. Agora ele está assistindo ao colapso de seu negócio. A moeda forte está expulsando-o de mercados estrangeiros conquistados a muito custo. E ele também está perdendo mercado no Brasil para importados chineses baratos.

Ele tem vergonha de reconhecer, mas começou a revender resistores chineses em vez de fabricar os seus. Mas ele tem um jeito de afogar a mágoa. Enquanto visitava o filho na Flórida recentemente, usou o real forte para gastar à vontade com outros brasileiros num shopping local.

“É a minha vingança”, disse Barbato.

Fonte: Wall Street Journal via Valor Econômico

 

 

 

 

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