Grã-Bretanha e França queriam que URSS impedisse unificação alemã, diz Gorbachev

Entrevista

O presidente francês François Mitterrand e a primeira-ministra britânica Margaret Thatcher queriam impedir a reunificação alemã, em 1990, e sugeriram que a União Soviética enviasse tropas para evitar o processo, segundo afirmou o último líder soviético, Mikhail Gorbachev, em entrevista à BBC.

A reunificação do país, separado entre a capitalista Alemanha Ocidental e a comunista Alemanha Oriental desde o fim da Segunda Guerra Mundial, foi possível graças ao colapso dos regimes comunistas do Leste Europeu e da queda do muro de Berlim, em 1989.

Segundo analistas, esses eventos foram em grande parte consequência do processo iniciado pelas políticas de abertura promovidas por Gorbachev como presidente da União Soviética, entre 1985 e 1991.

O ex-líder soviético diz que ele também era contrário à reunificação alemã, mas que descobriu que Mitterrand e Thatcher contavam com ele para impedir o processo.

“Eles insistiram que a unificação não deveria seguir adiante e que o processo deveria ser interrompido”, afirma Gorbachev.

“Eu perguntei se eles tinham alguma sugestão. Eles só tinham uma – que outra pessoa deveria resolver o problema por eles”, diz.

Ele afirma que Mitterrand e Thatcher queriam que ele dissesse não à reunificação e que enviasse tropas, mas argumenta que não poderia ter feito isso.

“Isso seria irresponsável. Eles estavam equivocados”, diz.

Legado

Aos 78 anos, Gorbachev mantém a serenidade ao falar sobre o legado de seu mandato.

Ele observa que esperava um desfecho diferente para a sua política de abertura, mas que faria tudo outra vez da mesma forma.

A abertura que derrubou o muro de Berlim e os regimes comunistas do Leste Europeu culminou com o fim da própria União Soviética, em 1991.

Por essa razão, o período de Gorbachev à frente do Kremlin permanece altamente polêmico entre a maioria dos russos.

O ex-líder soviético argumenta que trouxe muitos benefícios para a Rússia, dos quais a população do país estaria se beneficiando até hoje – mais liberdade e um reordenamento das relações da Rússia com o mundo.

“Eu acho que 1989 foi uma mudança para melhor. Não há dúvidas sobre isso. Nós não tínhamos a liberdade necessária, particularmente a liberdade de expressão”, diz.

“Um dos países mais educados do mundo tinha eleições que – vamos colocar isso de maneira branda – não eram eleições de verdade, eram meias-eleições, porque as pessoas tinham a escolha de apenas um candidato”, diz.

Segundo ele, “muita coisa precisava ser feita naquela época”. “Precisávamos de mudanças”, diz.

Reconhecimento

Apesar do reconhecimento internacional, como o Prêmio Nobel da Paz que recebeu em 1990, na atual política russa Gorbachev tem um peso quase zero.

Ele também seleciona suas palavras com cuidado, elogiando o premiê Vladimir Putin pessoalmente como o homem que estabilizou o país, mas sem deixar dúvidas de que vê muitas coisas erradas na forma como o país é administrado.

Ele classifica a Rússia Unida, o partido dominante que apoia Putin e o presidente Dmitry Medvedev, como uma “cópia ruim” do antigo Partido Comunista da União Soviética.

E ele acredita que o que a Rússia precisa hoje é de mais democracia. “Precisamos transformar nosso país. Precisamos modernizar nosso país”, ele diz.

“Isso não pode ser feito por pressão. Só pode ser feito por meio da democracia, estabelecendo um ambiente livre e democrático com a participação do povo”, diz.

Ele deixa claro, porém, que acredita que isso é algo que os russos têm que resolver por conta própria, sem lições do mundo exterior.

O que ele faz questão de estabelecer é sua oposição às recentes sugestões de Putin de que estaria contemplando a possibilidade de retornar à Presidência, cargo que ocupou entre 2000 e 2008.

“Eu não gostei da frase ‘Eu vou sentar com o presidente e decidir’”, observa Gorbachev.

“Acho que isso deveria ser decidido pelos eleitores, pelo povo, e eu não o ouvi mencionar o povo. Não acho que isso seja correto”, afirma.

Fonte: BBC Brasil

D & P informa:  Esta entrevista foi publicada pela BBC em 21 e setembro de 2009.

Favorito na Guatemala quer armas do Brasil

FLÁVIA MARREIRO

Favorito nas eleições presidenciais da Guatemala deste domingo, o general reformado Otto Pérez Molina promete ofensiva contra o narcotráfico e quer contar com armas e equipamentos brasileiros para fortalecer as Forças Armadas.

Pérez Molina se referiu especificamente ao Super Tucano, da Embraer, aeronave considerada mais adaptada para combates em áreas de selva, e espera contar com financiamento brasileiro para as aquisições.

Na entrevista concedida à Folha, por telefone, o candidato do Partido Patriota (conservador) rejeitou o diagnóstico de especialistas que avaliam que o crime organizado e o narcotráfico são uma ameaça ainda mais grave na Guatemala que no México.

“Não creio que estejamos na situação de narcoestado ou de Estado falido. Vai depender do próximo governo enfrentar essa ameaça, esse grande risco que, sim, é latente no país”, disse.

Em meio a uma campanha violenta – ao menos 35 candidatos locais e ativistas foram assassinados -, o país debate o poder de influência do crime organizado nas urnas. Adversários trocam acusações sobre recebimento de dinheiro sujo.

Pérez Molina, 60, vem sendo criticado por não revelar seus doadores de campanha. “Cada um dos doadores tem direito à sua privacidade, por questões de segurança. Pedimos para divulgar seus nomes, mas eles não quiseram. Posso lhe garantir que nosso dinheiro não vem de negócios sujos.”

Acusado por ativistas de direitos humanos de estar ligado a crimes e massacres durante a sangrenta guerra civil do país (1960-1996), o candidato deve se tornar o primeiro presidente de origem militar desde 1986.

Ele nega as acusações e não esteve formalmente envolvido em uma investigação. O general reformado cobra prova dos ativistas e cita sua participação nas negociações de paz de 1996.

A guerra civil na Guatemala deixou 200 mil mortos, a maioria indígenas. Uma Comissão da Verdade sobre o conflito apoiada pela ONU conclui que 93% das mortes foram causadas pelas Forças Armadas e grupos paramilitares relacionados.

Pérez Molina lidera a corrida presidencial de maneira isolada desde que a Justiça guatemalteca vetou a candidatura de Sandra Torres, ex-mulher do atual presidente centro-esquerdista Álvaro Colom.

O divórcio recente do casal presidencial, uma manobra para contornar um impedimento legal, não deu certo, e não há candidatos competitivos de centro esquerda ou esquerda.

Ainda assim, Pérez Molina só deve consolidar a vitória no segundo turno, em novembro.

A seguir, principais momentos da entrevista, feita por telefone.

FOLHA – Alguns analistas dizem que a Guatemala vive ameaça mais grave que o México em termos de atuação do crime organizado. Qual o seu diagnóstico? O sr. promete “mano dura”. Seguirá Calderón no México?

OTTO PÉREZ MOLINA – Há uma grande diferença entre o México e a Guatemala, também pelo tamanho dos cartéis. Lá são muito maiores, mais fortes. Aqui são três cartéis tentando controlar corredores de trânsito de drogas e o que temos é fazer frente a isso e recuperar essas áreas. Não creio que estejamos na situação de narcoestado ou de Estado falido. Vai depender de o próximo governo enfrentar essa ameaça, esse grande risco que, sim, é latente no país. Creio que podemos ter um governo que enfrente o problema sem chegar aos níveis de violência do México.

FOLHA O sr. concorda que poderá governar um país sem controle total sobre suas fronteiras? Qual a dimensão do cartel mexicano Los Zetas na Guatemala?

PÉREZ MOLINA Sim. Temos 948 km de fronteira com o México, há muita porosidade, muitos pontos cegos, tráfico de armas, imigrantes ilegais. Há necessidade de um esforço muito grande. Temos de fortalecer tanto a Força Aérea como as bases navais no Pacífico como no Atlântico, porque são locais de passagem da droga.

Houve um deslocamento dos Zetas com a chegada do novo governo mexicano [Calderón] e a presença deles na Guatemala é muito violenta. Das áreas que lhes interessavam expulsaram os grupos locais, cooptaram ou simplesmente os destruíram totalmente. Utilizam métodos muito sanguinários, o que o que lhes fez virar notícia na Guatemala nesses últimos três anos.

FOLHA Os EUA, com sua crise econômica interna, sinalizam que não deve aumentar significativamente recursos para a luta antidrogas. O que sr. espera de Washington e dos vizinhos?

PÉREZ MOLINA – O que pedimos é que haja uma estratégia regional, que vá desde os EUA até o sul, onde estão os países produtores. O financiamento dos EUA para luta contra o narcotráfico tem sido muito baixo, ou seja, não dependemos deles para fazer esse trabalho.

Países como Brasil podem ter papel importante pelo grau de tecnologia que desenvolveram, no momento que precisamos fortalecer nossa Força Aérea, a Marinha, conseguir radares, construir centros de comando e de controle.

FOLHA – Quais tecnologias brasileiras?

PÉREZ MOLINA – Por exemplo, os aviões como o Super Tucano. O Brasil desenvolveu aviões que são muito adequados para países como a Guatemala, para nossas pistas. Há também necessidade de equipamentos para controlar o tráfico aéreo, radares. Não necessariamente estamos falando de doação, mas de acordos econômicos, que se possa encontrar financiamento no Brasil para adquirir esses equipamentos. Obviamente, o Estado da Guatemala seria o garantidor do pagamento.

Não se pode deixar de lado essa relação econômica. Afinal é uma relação econômica que pode ter impacto direto na questão da segurança no país.

FOLHA – Ativistas vinculam o sr. a violações de direitos humanos na guerra civil. Como se defende?

PÉREZ MOLINA – Há 12 anos saí do Exército e passei esse período como qualquer guatemalteco, quando qualquer denúncia pôde tramitar pelos tribunais do país. Se tivessem realmente provas, argumentos formais (contra mim), estou certo de que já teriam levado aos tribunais. Mas o único que lhes restou é fazer afirmações nos meios de comunicação sem nenhum respaldo.

FOLHA A Corte Interamericana de Direitos Humanos ordenou no ano passado a reabertura do caso do guerrilheiro Efraín Bámaca, morto em 1992, e a viúva inclui o senhor entre os acusados. O sr. apoia a reabertura das investigações?

PÉREZ MOLINA – Não tenho que reabrir nada. Quem tem de reabrir são os tribunais, e em todo caso eu não tenho nenhuma acusação de violações de direitos humanos nos tribunais. Nesse sentido, estamos tranquilos e estou disposto a me apresentar onde quer que seja porque não tenho nada do que me envergonhar.

FOLHA – O sr. faz autocrítica sobre o papel das Forças Armadas na Guerra Civil e do seu período no Exército?

PÉREZ MOLINA – Os guatemaltecos devemos ter aprendido após termos vivido 36 anos de enfrentamento armado interno. Eu representei o Exército nas negociações e nas assinaturas dos acordos de paz. Estive presente nos acordos substantivos e assinei a paz firme e duradoura há 16 anos. Em mim encontrará uma pessoa disposta à negociação, a soluções pacíficas. Além disso, na minha carreira, em momentos cruciais para o país, tive de defender a institucionalidade e a democracia na Guatemala, como durante o autogolpe de Serrano [1993]. Eu tive de pedir a ele pessoalmente que renunciasse, conforme havia analisado a Corte de Constitiucionalidade. Queremos fortalecer a democracia, a institucionalidade, respeitar os direitos humanos para que o país avance.

FOLHA Há um debate sobre a influência do narcotráfico nas eleições. A Guatemala pode ter uma versão de Pablo Escobar no Congresso, como ocorreu na Colômbia?

PÉREZ MOLINA – Esse é um risco que sempre está presente, latente. Mas isso depende dos controles que os partidos farão. É um risco no país. Pelo menos nós temos sido muito cuidadosos com isso. Os guatemaltecos estaremos alertas.

FOLHA Os especialistas cobram que medida para coibir a contaminação é a transparência nas doações de campanha. Por que o sr. não revela seus doadores?

PÉREZ MOLINA Claro, resolver o problema passa por fazer mais transparentes os financiamentos de campanha. O que posso dizer, e isso todo mundo sabe, é que meu financiamento veio do setor empresarial basicamente, dos próprios integrantes do partido. Fizemos pública nossa bandeira de combate frontal ao narcotráfico. Os cartéis sabem que se ganha Otto Pérez e o Partido Patriota terão um governo que combate o crime organizado. O último lugar que apostariam é nossa campanha, por isso foram buscar outros partidos, que poderiam lhes dar algumas posições.

Cada um dos doadores tem direito à sua privacidade, por questões de segurança. Pedimos para divulgar seus nomes, mas eles não quiseram e nós respeitamos a privacidade deles. Posso lhe garantir que nosso dinheiro não vem de negócios sujos. Só quatro pessoas estão autorizadas a receber dinheiro em nome da campanha.

FOLHA Falamos do crime organizado, mas também se diz que estruturas paraestatais armadas e de inteligência, herança da guerra, são também um problema. O que sr. diz?

PÉREZ MOLINA Eu diria que não, isso ficou no passado. Temos na Guatemala uma comissão com apoio de doadores e da ONU cujo principal esforço é lutar contra essas estruturas paralelas que poderiam haver sido criadas. Que haja estruturas paralelas a essa altura vai ficando como um mito. É uma realidade que não existe mais. O que é há é o crime organizado, essa é a ameaça emergente.

FOLHA – Qual são as três metas que o sr. quer alcançar ao final do mandato, se for eleito?

PÉREZ MOLINA – Queremos diminuir os níveis de homicídios, de assaltos e secretos. Outro desafio é a economia e os níveis de pobreza e problema extrema níveis de desnutrição infantil crônica entre os menores de cinco anos. Uma Guatemala segura, um país com crescimento econômico e com oportunidades e um país onde as maiores desigualdades sociais estarão reduzidas.

Fonte: Folha de São Paulo

O império em sua glória, pela última vez

Por João Villaverde

Não há dúvida de que está em curso o fim da era de dominação global do Ocidente, iniciada há alguns séculos. Essa é a convicção de um dos mais renomados especialistas em história econômica e financeira, o escocês Niall Ferguson. A perda de posição relativa dos Estados Unidos e da União Europeia no mundo e o impacto desse encolhimento na sua capacidade de influir, econômica e politicamente, é o fenômeno central da análise de Ferguson, professor em Harvard e na London School of Economics.

O episódio do 11 de Setembro de 2001 foi o primeiro a sinalizar a fragilidade do “império” americano, depois escancarada pela sucessão de falências bancárias iniciada em 2008. Mas, quando perguntado, em 2004, por ocasião de uma palestra no American Enterprise Institute for Public Policy Research, se a União Europeia poderia se constituir na força que substituiria os Estados Unidos, Ferguson respondeu com um enfático “não”. Para ele, a UE era um “desastre esperando para acontecer”. Acreditava que a junção de culturas centenárias, por vezes milenares, sob uma mesma moeda só daria certo caso fosse concomitante à união fiscal, algo que não aconteceu. Teve, portanto, uma certeira visão do futuro.

Autor dos best-sellers “A Ascensão do Dinheiro” (Civilização, 2009) e “Colosso: Ascensão e Queda do Império Americano” (Planeta, 2011), Ferguson tem cadeira cativa como colunista do “Financial Times” e da revista “Newsweek”.

Em seu livro mais recente, “Civilization”, lançado em março nos Estados Unidos, Ferguson mapeia o período de domínio do Ocidente no mundo – justamente a era que, segundo ele, vive seu ocaso hoje.

Abaixo, os principais trechos da entrevista que Ferguson concedeu ao Valor.

Valor: Quais poderão ser as consequências desta crise mundial, originada nos Estados Unidos em 2008 e que ainda parece longe de estar solucionada?

Niall Ferguson: Não tenho nenhuma dúvida de que vivemos o fim da era de dominação do Ocidente. A grande história a que a humanidade assistiu nos últimos 500 anos foi a ascensão e o domínio do Ocidente. Mas o período em que os costumes ocidentais prevaleceram está começando a acabar. Já assistimos, nesta primeira década do século XXI, a um processo que se tornará ainda mais forte a partir de agora, que é o surgimento, ou ressurgimento, se pensarmos em termos históricos, de países como China e Índia. Além disso, os países da América Latina têm reduzido o fosso que os separa dos ricos.

Valor: Sem o “império” americano e a União Europeia, o mundo viverá um vácuo de hegemonia até que alguma outra nação entre em cena?

Ferguson: Estamos no olho do furacão desse processo de passagem do equilíbrio de poder econômico do Ocidente para o resto do mundo. O poder tem saído das mãos das elites econômicas para os cidadãos em muitos países, num processo ainda difuso, mas cada vez mais abrangente. Um exemplo disso é o que ocorre com a mídia, devido ao enorme desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Hoje, qualquer um pode escrever um blog sobre um problema, e a partir daí mudar o direcionamento de seu governo, antes influenciado apenas pelas elites econômicas e midiáticas. As redes sociais têm influenciado os levantes em Londres e a concentração de pessoas na praça Tahir [Egito]. A mídia é crucial para entender toda essa mudança que estamos vivendo, como sempre foi. As revoluções americana e francesa não teriam acontecido sem a imprensa.

Valor: Ao mesmo tempo, a maior inclusão no debate político proporcionado pelas redes sociais tem gerado casos de impasse, como ocorre nos Estados Unidos, onde pequenos grupos organizados, como o Tea Party, são acusados pelo governo Obama de travarem as negociações entre democratas e republicanos…

Ferguson: A ideia de que os Estados Unidos estão polarizados e que isso é perigoso está totalmente errada. De fato, vivemos tempos de maior engajamento político, mas isso é muito mais interessante do que a fase pela qual os Estados Unidos estavam passando quando cheguei aqui pela primeira vez [no fim dos anos 1980]. Eram tempos de apatia e cinismo, e pouca participação política. Hoje é totalmente diferente. As pessoas estão politicamente energizadas pela internet e também por meios tradicionais, como a televisão. Acho isso ótimo.

Valor: Alguns analistas associam o maior acirramento político à série de eventos iniciada pelos ataques terroristas aos Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001. Como o senhor avalia isso?

Ferguson: Os ataques terroristas não foram um ponto de inflexão na política americana de que tanto se falava. Foram, sim, o primeiro sinal de fragilidade do império, ao mostrar ao americano comum o sério risco representado pelo terrorismo e pelo Islã radical. Mas esses fenômenos eram novidade apenas para os Estados Unidos. Já se tratava de algo claro e evidente para o resto do mundo. Ao mesmo tempo, o episódio criou a chance de os Estados Unidos serem, pela última vez, um império em sua glória completa.

Valor: Foi o início do fim?

Ferguson: Exatamente. As guerras no Afeganistão e no Iraque, naqueles primeiros anos, foram o último grande momento do poder americano. Em seguida, aquela nação que exalava um poder atraente e excitante passou a lidar com guerras mais complexas do que o governo George W. Bush inicialmente supunha, e também mais caras. Os Estados Unidos passaram a incorrer no triplo déficit – público, militar e em contas externas – e começaram a caminhar para a crise de 2008.

Valor: Como o senhor vê o combate à crise econômica nos Estados Unidos?

Ferguson: O governo Obama poderia, facilmente, ser pior do que está sendo. Mas isso não quer dizer que o combate à crise seja correto. O governo realmente aprendeu a lição dada pela péssima decisão do governo [Herbert] Hoover [1929-1932], que não utilizou as políticas fiscal e monetária para resgatar os bancos e empresas que estavam falindo. Mas, ainda que tenha agido corretamente no resgate, em 2009, o governo Obama trabalhou com uma lei de estímulos que era uma bagunça, e o dinheiro não foi gasto do jeito que poderia, mesmo em termos keynesianos.

Valor: Como o governo americano poderia ter usado a política fiscal para combater a crise?

Ferguson: Do modo como os chineses fizeram. O plano de estímulo à economia implementado pela China em 2009 foi um sucesso, ao concentrar uma fatia enorme de recursos para investimentos em infraestrutura. A sina que o governo Obama deixará é a falta de estabilização fiscal, especialmente o problema das aposentadorias, que começará a ocupar um espaço enorme no orçamento a partir de agora, com a aposentadoria dos “baby boomers” [os nascidos entre 1946 e 1964, que começam a se aposentar em 2011]. Metade dos americanos não paga imposto. Arrumar a questão fiscal e tributária será a missão número um do próximo presidente [que assume em 2013], mesmo que seja o próprio Obama.

Valor: Na Inglaterra, um forte aperto fiscal tem sido implementado desde o ano passado, mas ainda não parece ter dado resultado prático.

Ferguson: No caso britânico, a análise é razoavelmente simples: a situação fiscal era realmente muito ruim quando [o atual primeiro-ministro] David Cameron assumiu [em junho de 2010]. Cameron realmente tinha que fazer algo para que a economia não parasse. A tentativa de controlar o enorme déficit público tão logo assumisse era a decisão certa a ser tomada, já que a situação era insustentável. Mas o governo deveria saber que, mesmo que o aperto fosse necessário, invarialmente produziria reação popular. Os protestos a que assistimos recentemente em Londres são resultado direto do enorme fracasso da política pública interna.

Valor: E na União Europeia?

Ferguson: A zona do euro está em uma trajetória muito perigosa. Caminhamos para um calote permanente. A política de aperto fiscal coordenado só piora o problema da falta de crescimento e não resolve a sinuca do alto endividamento. Há um problema profundo nos países europeus: uma espiral de mergulho do crescimento, risco de calote e de falências bancárias, e de uma crise política na Alemanha.

Valor: O senhor afirmou, em 2004, que a UE era um “desastre esperando para acontecer”, porque não tinha realizado a união fiscal, apenas monetária. Acertou?

Ferguson: Era óbvio que seria impossível sustentar uma união monetária sem uma união fiscal. Imagine os Estados brasileiros com liberdade fiscal, ainda que usando a mesma moeda. O país não funcionaria. Mas os líderes europeus não sabiam disso, o que demonstra uma completa ignorância histórica.

Valor: Sua previsão, portanto, está se confirmando?

Ferguson: Não gosto quando as pessoas dizem “eu avisei”. Mas, enfim, eu avisei.

Valor: Em 9 de dezembro deste ano serão completados 20 anos da desintegração da União Soviética. O senhor vê aí uma lição para os europeus?

Ferguson: O grande paradoxo do nosso tempo é que a busca pela união expõe a necessidade de fragmentação. A falência da União Soviética demonstrou que o desejo de fragmentação política, embasada na miríade de diferenças culturais, era muito forte. Foi o último império a quebrar. Os países com grandes territórios que querem continuar com o tamanho que têm terão de atuar de maneira firme e compreensiva com suas minorias. Nesse sentido, Estados Unidos e Brasil, por exemplo, não vão se desintegrar. Mas o mesmo não pode ser dito da União Europeia, da Rússia e mesmo da China. Será interessante ver o mundo daqui a cem anos.

Valor: Valor: O que mais o preocupa hoje?

Ferguson: O fato de que a economia mundial está muito próxima do que vivemos na década de 1930. Estamos à beira de uma depressão, a despeito dos países ricos terem implementado políticas fiscais e monetárias ativas. Já usamos todas as armas e continuamos em uma situação muito delicada.

Valor: E parece que não há um “plano B” para a economia mundial.

Ferguson: Não há uma saída como em Bretton Woods [1944], um padrão ouro ou um Plaza Accord [1985] no radar. O G20, que teve participação importante na formação de consensos no pós-crise, entre 2009 e o início de 2010, desapareceu. O mundo está no “cada um por si”, sem qualquer coordenação entre as nações. Os Estados Unidos, por meio do Federal Reserve, consideram uma terceira expansão quantitativa, sem qualquer consideração sobre o efeito que isso produzirá na moeda brasileira, por exemplo. Da mesma forma, a China mantém sua moeda ligada ao dólar, evitando sua valorização, sem se preocupar com o comércio global. Essa falta de coordenação é assombrosa.

Valor: O senhor é otimista quanto ao papel que o Brasil pode desempenhar no futuro?

Ferguson: O Brasil é uma das razões para ficarmos otimistas, mas vai ser muito difícil para a economia brasileira manter seu ritmo de crescimento num cenário em que a União Europeia se auto destrói e os Estados Unidos ficam estagnados. O Brasil tem enfrentado a valorização de sua moeda, algo que continuará no médio e longo prazos. Aliás, os brasileiros vão precisar se preparar para um cenário em que os solavancos cambiais serão ainda mais violentos no mundo.

Valor: Qual deve ser a prioridade do governo brasileiro nesse cenário?

Ferguson: Apelar para o fortalecimento de fóruns coletivos, como o G20, e para que se construa uma coordenação sobre o movimento nas taxas de câmbio.

Fonte: Valor