Favorito na Guatemala quer armas do Brasil

FLÁVIA MARREIRO

Favorito nas eleições presidenciais da Guatemala deste domingo, o general reformado Otto Pérez Molina promete ofensiva contra o narcotráfico e quer contar com armas e equipamentos brasileiros para fortalecer as Forças Armadas.

Pérez Molina se referiu especificamente ao Super Tucano, da Embraer, aeronave considerada mais adaptada para combates em áreas de selva, e espera contar com financiamento brasileiro para as aquisições.

Na entrevista concedida à Folha, por telefone, o candidato do Partido Patriota (conservador) rejeitou o diagnóstico de especialistas que avaliam que o crime organizado e o narcotráfico são uma ameaça ainda mais grave na Guatemala que no México.

“Não creio que estejamos na situação de narcoestado ou de Estado falido. Vai depender do próximo governo enfrentar essa ameaça, esse grande risco que, sim, é latente no país”, disse.

Em meio a uma campanha violenta – ao menos 35 candidatos locais e ativistas foram assassinados -, o país debate o poder de influência do crime organizado nas urnas. Adversários trocam acusações sobre recebimento de dinheiro sujo.

Pérez Molina, 60, vem sendo criticado por não revelar seus doadores de campanha. “Cada um dos doadores tem direito à sua privacidade, por questões de segurança. Pedimos para divulgar seus nomes, mas eles não quiseram. Posso lhe garantir que nosso dinheiro não vem de negócios sujos.”

Acusado por ativistas de direitos humanos de estar ligado a crimes e massacres durante a sangrenta guerra civil do país (1960-1996), o candidato deve se tornar o primeiro presidente de origem militar desde 1986.

Ele nega as acusações e não esteve formalmente envolvido em uma investigação. O general reformado cobra prova dos ativistas e cita sua participação nas negociações de paz de 1996.

A guerra civil na Guatemala deixou 200 mil mortos, a maioria indígenas. Uma Comissão da Verdade sobre o conflito apoiada pela ONU conclui que 93% das mortes foram causadas pelas Forças Armadas e grupos paramilitares relacionados.

Pérez Molina lidera a corrida presidencial de maneira isolada desde que a Justiça guatemalteca vetou a candidatura de Sandra Torres, ex-mulher do atual presidente centro-esquerdista Álvaro Colom.

O divórcio recente do casal presidencial, uma manobra para contornar um impedimento legal, não deu certo, e não há candidatos competitivos de centro esquerda ou esquerda.

Ainda assim, Pérez Molina só deve consolidar a vitória no segundo turno, em novembro.

A seguir, principais momentos da entrevista, feita por telefone.

FOLHA – Alguns analistas dizem que a Guatemala vive ameaça mais grave que o México em termos de atuação do crime organizado. Qual o seu diagnóstico? O sr. promete “mano dura”. Seguirá Calderón no México?

OTTO PÉREZ MOLINA – Há uma grande diferença entre o México e a Guatemala, também pelo tamanho dos cartéis. Lá são muito maiores, mais fortes. Aqui são três cartéis tentando controlar corredores de trânsito de drogas e o que temos é fazer frente a isso e recuperar essas áreas. Não creio que estejamos na situação de narcoestado ou de Estado falido. Vai depender de o próximo governo enfrentar essa ameaça, esse grande risco que, sim, é latente no país. Creio que podemos ter um governo que enfrente o problema sem chegar aos níveis de violência do México.

FOLHA O sr. concorda que poderá governar um país sem controle total sobre suas fronteiras? Qual a dimensão do cartel mexicano Los Zetas na Guatemala?

PÉREZ MOLINA Sim. Temos 948 km de fronteira com o México, há muita porosidade, muitos pontos cegos, tráfico de armas, imigrantes ilegais. Há necessidade de um esforço muito grande. Temos de fortalecer tanto a Força Aérea como as bases navais no Pacífico como no Atlântico, porque são locais de passagem da droga.

Houve um deslocamento dos Zetas com a chegada do novo governo mexicano [Calderón] e a presença deles na Guatemala é muito violenta. Das áreas que lhes interessavam expulsaram os grupos locais, cooptaram ou simplesmente os destruíram totalmente. Utilizam métodos muito sanguinários, o que o que lhes fez virar notícia na Guatemala nesses últimos três anos.

FOLHA Os EUA, com sua crise econômica interna, sinalizam que não deve aumentar significativamente recursos para a luta antidrogas. O que sr. espera de Washington e dos vizinhos?

PÉREZ MOLINA – O que pedimos é que haja uma estratégia regional, que vá desde os EUA até o sul, onde estão os países produtores. O financiamento dos EUA para luta contra o narcotráfico tem sido muito baixo, ou seja, não dependemos deles para fazer esse trabalho.

Países como Brasil podem ter papel importante pelo grau de tecnologia que desenvolveram, no momento que precisamos fortalecer nossa Força Aérea, a Marinha, conseguir radares, construir centros de comando e de controle.

FOLHA – Quais tecnologias brasileiras?

PÉREZ MOLINA – Por exemplo, os aviões como o Super Tucano. O Brasil desenvolveu aviões que são muito adequados para países como a Guatemala, para nossas pistas. Há também necessidade de equipamentos para controlar o tráfico aéreo, radares. Não necessariamente estamos falando de doação, mas de acordos econômicos, que se possa encontrar financiamento no Brasil para adquirir esses equipamentos. Obviamente, o Estado da Guatemala seria o garantidor do pagamento.

Não se pode deixar de lado essa relação econômica. Afinal é uma relação econômica que pode ter impacto direto na questão da segurança no país.

FOLHA – Ativistas vinculam o sr. a violações de direitos humanos na guerra civil. Como se defende?

PÉREZ MOLINA – Há 12 anos saí do Exército e passei esse período como qualquer guatemalteco, quando qualquer denúncia pôde tramitar pelos tribunais do país. Se tivessem realmente provas, argumentos formais (contra mim), estou certo de que já teriam levado aos tribunais. Mas o único que lhes restou é fazer afirmações nos meios de comunicação sem nenhum respaldo.

FOLHA A Corte Interamericana de Direitos Humanos ordenou no ano passado a reabertura do caso do guerrilheiro Efraín Bámaca, morto em 1992, e a viúva inclui o senhor entre os acusados. O sr. apoia a reabertura das investigações?

PÉREZ MOLINA – Não tenho que reabrir nada. Quem tem de reabrir são os tribunais, e em todo caso eu não tenho nenhuma acusação de violações de direitos humanos nos tribunais. Nesse sentido, estamos tranquilos e estou disposto a me apresentar onde quer que seja porque não tenho nada do que me envergonhar.

FOLHA – O sr. faz autocrítica sobre o papel das Forças Armadas na Guerra Civil e do seu período no Exército?

PÉREZ MOLINA – Os guatemaltecos devemos ter aprendido após termos vivido 36 anos de enfrentamento armado interno. Eu representei o Exército nas negociações e nas assinaturas dos acordos de paz. Estive presente nos acordos substantivos e assinei a paz firme e duradoura há 16 anos. Em mim encontrará uma pessoa disposta à negociação, a soluções pacíficas. Além disso, na minha carreira, em momentos cruciais para o país, tive de defender a institucionalidade e a democracia na Guatemala, como durante o autogolpe de Serrano [1993]. Eu tive de pedir a ele pessoalmente que renunciasse, conforme havia analisado a Corte de Constitiucionalidade. Queremos fortalecer a democracia, a institucionalidade, respeitar os direitos humanos para que o país avance.

FOLHA Há um debate sobre a influência do narcotráfico nas eleições. A Guatemala pode ter uma versão de Pablo Escobar no Congresso, como ocorreu na Colômbia?

PÉREZ MOLINA – Esse é um risco que sempre está presente, latente. Mas isso depende dos controles que os partidos farão. É um risco no país. Pelo menos nós temos sido muito cuidadosos com isso. Os guatemaltecos estaremos alertas.

FOLHA Os especialistas cobram que medida para coibir a contaminação é a transparência nas doações de campanha. Por que o sr. não revela seus doadores?

PÉREZ MOLINA Claro, resolver o problema passa por fazer mais transparentes os financiamentos de campanha. O que posso dizer, e isso todo mundo sabe, é que meu financiamento veio do setor empresarial basicamente, dos próprios integrantes do partido. Fizemos pública nossa bandeira de combate frontal ao narcotráfico. Os cartéis sabem que se ganha Otto Pérez e o Partido Patriota terão um governo que combate o crime organizado. O último lugar que apostariam é nossa campanha, por isso foram buscar outros partidos, que poderiam lhes dar algumas posições.

Cada um dos doadores tem direito à sua privacidade, por questões de segurança. Pedimos para divulgar seus nomes, mas eles não quiseram e nós respeitamos a privacidade deles. Posso lhe garantir que nosso dinheiro não vem de negócios sujos. Só quatro pessoas estão autorizadas a receber dinheiro em nome da campanha.

FOLHA Falamos do crime organizado, mas também se diz que estruturas paraestatais armadas e de inteligência, herança da guerra, são também um problema. O que sr. diz?

PÉREZ MOLINA Eu diria que não, isso ficou no passado. Temos na Guatemala uma comissão com apoio de doadores e da ONU cujo principal esforço é lutar contra essas estruturas paralelas que poderiam haver sido criadas. Que haja estruturas paralelas a essa altura vai ficando como um mito. É uma realidade que não existe mais. O que é há é o crime organizado, essa é a ameaça emergente.

FOLHA – Qual são as três metas que o sr. quer alcançar ao final do mandato, se for eleito?

PÉREZ MOLINA – Queremos diminuir os níveis de homicídios, de assaltos e secretos. Outro desafio é a economia e os níveis de pobreza e problema extrema níveis de desnutrição infantil crônica entre os menores de cinco anos. Uma Guatemala segura, um país com crescimento econômico e com oportunidades e um país onde as maiores desigualdades sociais estarão reduzidas.

Fonte: Folha de São Paulo

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