Ataques de 11 de setembro incentivaram brasileiro a lutar pelos EUA no Iraque

Alessandra Corrêa

No dia 11 de setembro de 2008, exatamente sete anos após os atentados contra Nova York e Washington que mataram quase 3 mil pessoas, o brasileiro Bruno Bonaldi desembarcava no Iraque como integrante de um batalhão de fuzileiros navais americanos enviados para lutar no país.

A temporada de sete meses na província iraquiana de Al-Anbar foi a realização de um sonho iniciado ainda na adolescência e que se tornou mais forte com os ataques de 11 de setembro de 2011.

“Quando aconteceu tudo aquilo em 2001 e quando foi confirmado, depois, que foi um ataque, um ato terrorista, eu passei a ter uma vontade ainda maior de me alistar e de poder lutar pelo país”, disse Bonaldi, 29 anos, à BBC Brasil.

Dez anos após os atentados, de volta à casa onde vive com a mulher, a também brasileira Ana Paula, em Little Falls, no Estado de Nova Jersey, Bonaldi, que hoje é cidadão americano, diz que os eventos de 11 de setembro o tornaram mais patriota.

“Não nasci aqui, mas eu acho que sou ainda mais patriota hoje do que eu seria (se os atentados não tivessem acontecido)”, diz Bonaldi.

Trajetória

Nascido em Paranaguá, no Estado do Paraná, Bonaldi chegou aos Estados Unidos aos 11 anos de idade, com a mãe e os irmãos.

“Somos quatro irmãos, eu sou o mais velho. Meu pai já estava aqui havia cerca de oito meses e durante esse período juntou dinheiro para poder mandar nos buscar”, relembra.

No início, a adaptação ao novo país foi difícil.

“Eu sempre tinha aquela mentalidade de um dia voltar para o Brasil. Pensava: ‘Meus pais ficando ou não aqui, eu vou embora’. Minha vontade era sempre ir embora”, diz.

A mudança veio no segundo ano do Ensino Médio, quando o então adolescente assistiu a uma palestra na escola sobre as Forças Armadas e, mais especificamente, os Marines – como os fuzileiros navais são chamados nos Estados Unidos.

“Naquele momento eu já sabia que aquilo era o que eu queria para mim”, diz Bonaldi.

Bonaldi terminou o Ensino Médio em 2001, mesmo ano dos atentados. Imediatamente após deixar a escola, começou uma longa trajetória na tentativa de se alistar nas Forças Armadas.

Carta a Bush

A realização do sonho, porém, levou vários anos e incluiu algumas decepções. Até 2006, Bonaldi estava em situação ilegal nos Estados Unidos e não podia, portanto, se alistar.

“Desde 2001 tentei inúmeras vezes me alistar, mesmo sendo ilegal, mas sem sucesso”, diz.

O soldado conta que chegou a enviar uma carta ao então presidente George W. Bush explicando sua situação e pedindo ajuda.

“Escrevi dizendo qual era a minha intenção e perguntando se alguém podia fazer alguma coisa por mim. Explicando que eu não estava atrás de Green Card, o que eu queria era me alistar mesmo.”

Ele diz que recebeu uma resposta da Casa Branca, com a orientação de procurar o serviço de imigração e seguir as regras.

Seus pais acabaram conseguindo o Green Card por meio dos empregadores e, em 2006, Bonaldi finalmente conseguiu regularizar sua situação no país e ingressar nas Forças Armadas.

Iraque

Dois anos após entrar para o Corpo de Fuzileiros Navais, Bonaldi foi enviado ao Iraque – país invadido por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos como parte da chamada “Guerra ao Terror” lançada após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Na província de Al-Anbar, o batalhão do qual fazia parte era responsável pela segurança em um trecho de estrada.

Do período passado no Iraque, Bonaldi guarda a lembrança das longas jornadas em patrulhas à beira da estrada e do contato com a população local.

“O que me impressionou de cara foi a pobreza”, afirma.

“Alguns iraquianos mais velhos não acreditavam que Saddam (Hussein) já tinha sido enforcado. Achavam que era uma farsa da mídia, que ele ainda estava escondido, que iria reassumir o poder e tudo ia voltar a ser como era antes.”

Torcedor do Flamengo, Bonaldi levava na bagagem uma camisa do clube e diz que muitas vezes usou o futebol como maneira de superar a barreira da língua e se aproximar da população.

“Viam a camisa e já vinham falar de Zico”, lembra.

Balanço

Passados dez anos dos atentados que levaram à invasão do Iraque – e do Afeganistão – Bonaldi diz que a ação militar da qual fez parte valeu a pena.

“Acho que valeu a pena tanto para mim, porque realizei um sonho, foi um aprendizado enorme, quanto para o próprio país, que está livre de um governo que maltratou muito o povo”, afirma.

A morte do líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, em maio deste ano – em uma operação de forças americanas no Paquistão –, reforçou a certeza de que seu esforço no Iraque foi válido.

“O papel que eu cumpri lá (no Iraque) eu acho que valeu a pena. Ele (Bin Laden) foi morto, eu acho que conseguimos tirar um tirano”, afirma.

No entanto, Bonaldi diz acreditar que ainda há trabalho pela frente no que diz respeito à luta contra o extremismo. “Ele se foi, a Al-Qaeda fica.”

Hoje Bonaldi faz parte de um batalhão da reserva, em Nova Jersey. Sobre a dupla cidadania, diz que se sente meio americano e meio brasileiro.

“Eu diria que é meio a meio, porque eu nunca esqueci do Brasil”, afirma. “Amo o país onde nasci, mas amo aqui também. É um país que me deu oportunidades e que vai dar oportunidades para a minha família.”

Fonte: BBC Brasil

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